Em mais um evento para celebrar o mês da ópera, o Theatro Municipal de São Paulo estreia no dia 22 de outubro, às 19h, A Voz Humana, ópera curta de Francis Poulenc. Baseada na peça homônima do francês Jean Cocteau, o espetáculo terá regência de Alessandro Sangiorgi e direção cênica de André Heller-Lopes. As apresentações seguem nos dias 23, às 17h e, 25, às 20h, dia exato em que é comemorado o Dia Mundial da Ópera. Os ingressos variam de R$10 a R$150 e estão à venda pela internet.
A obra teve sua estreia em São Paulo em 1987 e, no ano de 1999, o Municipal abrigou a versão, cantada em português, com tradução de Lauro Machado Coelho. Agora, pela segunda vez no palco da instituição, a montagem será apresentada com o libreto original em francês, com legenda ao vivo.
A peça de um ato narra a história de uma única personagem em um quarto com um telefone. A mulher, anônima e referida como “Elle” (“ela” em francês), foi abandonada pelo amante e compartilha de seus sentimentos por meio de uma ligação em sua última conversa com seu affair. A cantora Rosana Lamosa interpreta a mulher enclausurada em suas próprias angústias e dores, no papel que é considerado por muitos um dos maiores “tours de force” do canto lírico feminino, já que estamos falando de uma ópera em que a artista divide o palco apenas com a orquestra, sem contar com o apoio de nenhum outro solista ou de um grupo coral.
Foi através de uma linha cruzada que Cocteau dizia ter escutado a conversa que serviu de base para a criação de A Voz Humana. Porém, reza a lenda que o autor, na cena de despedida, tinha como protagonistas um rapaz aos prantos e um homem mais velho. Não é difícil imaginar que, na verdade, a conversa tenha acontecido entre o próprio Cocteau e seu amante até 1933, Jean Debordes. Talvez, para limitar o potencial escândalo, terminou imortalizado pelo escritor na voz de uma mulher.
Para o diretor cênico, André Heller-Lopes, “A Voz Humana é uma obra que flerta descaradamente com o universo gay – com muita honra. E isso por toda história que está por trás de sua criação em teatro ou ópera. Pode não ter a mensagem política francamente LGBTQIAP+ de uma ópera como Harvey Milk, de S. Wallace, mas é aparentada dos amores de Orestes e Phylade, na Iphigénie en Tauride, de Alban Berg, ou da mais recente Brokeback Mountain, de Charles Wuorinen. Assim como nessas óperas de 1779, 1937 e 2014, A Voz Humana, de 1959, é acima de tudo humana e profundamente assim; por isso mesmo, uma ópera do nosso tempo”.
Além da obra de Poulenc, o espetáculo traz também no repertório a Ópera Aberta para Cantora e Halterofilista, de Gilberto Mendes, uma peça curiosa que une duas figuras distintas num ambiente surpreendente – fora do palco – numa disputa por atenções e olhares. O programa é centrado na figura de uma cantora-atriz dirigida ao espaço cênico para dar vida e caráter à dupla face da máscara teatral: a tragédia e a comédia, personificadas em um melodrama realista (A Voz Humana, de Poulenc/Cocteau) e uma sátira surrealista (Ópera Aberta, de Gilberto Mendes). As duas peças põem à prova o instinto, a técnica, a flexibilidade psíquica e a fisicalidade da intérprete no papel ora de uma mulher destruída pelo outro, ora de uma mulher inflada em seu próprio ego.
Resumo da ópera | Concebida originalmente como peça de teatro, A Voz Humana foi encenada pela primeira vez em fevereiro de 1930 na Comédie-Française. No palco, apenas uma mulher jovem em seu quarto, que conversa por telefone com o amante que a abandonou e que, no dia seguinte, se casará com outra. Durante o diálogo – que para o espectador se apresenta como um monólogo –, constantemente entrecortado por interrupções na linha telefônica, linhas cruzadas e intrusões da telefonista, emerge uma ampla gama de sentimentos e de mudanças de humor da personagem. Com as emoções à flor da pele, a jovem fala vertiginosamente, sem muita coerência; rememora os dias felizes do passado, nega o abandono, finge indiferença, agarra-se a qualquer fiapo de esperança de reconquistá-lo, mente, se angustia. Tudo é sofrimento e solidão.
André Heller-Lopes | Um dos nomes de destaque da ópera da América Latina, André Heller-Lopes é professor da Escola de Música da UFRJ e PhD pelo King’s College London. Foi, em dois momentos, diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (2017, 2019-2020). Por trabalhos como o Anel Brasileiro, para o Theatro Municipal de São Paulo, foi destacado pela revista Época como um dos “100 Brasileiros Mais Influentes de 2012” – também foi elogiado pela revista Opera, do Reino Unido, e pela revista alemã Opernwelt. Desde 2019, assina a coluna Dito Erudito, na revista Veja Rio. Especializou-se na Royal Opera House de Londres, na Ópera de São Francisco e no Metropolitan Opera, de Nova York. Dirigiu óperas e concertos por todo Brasil, em Portugal, nos Estados Unidos, na Áustria, na Inglaterra, na Malásia, na Alemanha, na França, na Argentina e no Uruguai. No Rio de Janeiro, no Parque Lage, encenou Sonho de uma Noite de Verão, indicado para o Opera Awards de 2014. Dentre seus mais recentes trabalhos estão Aida e Cosi Fan Tutte, na Alemanha, A Raposinha Astuta, na Colômbia, Fausto, no Rio de Janeiro e no Chile, A Viúva Alegre, na Estônia, e Il Turco in Italia, em São Paulo. Em 2022, concluirá, com As Bodas de Fígaro, sua trilogia de Mozart para a Opera Wroclawska, fará um novo Don Giovanni, para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e a estreia brasileira de Ariane, de Martinu, para o Theatro São Pedro, em São Paulo.
Protocolos de Segurança | Os concertos presenciais no Theatro Municipal de São Paulo seguem todos os protocolos de segurança e prevenção à propagação do Coronavírus (Covid-19) e as orientações do Plano São Paulo e da Prefeitura Municipal de São Paulo para retomada consciente das atividades. Ainda trabalhando com uma capacidade reduzida de público, o Theatro pede o uso de máscaras PFF2 ou NR-95 e, a partir de 11 de novembro, passará a exigir a apresentação do cartão de vacinação (digital ou físico) com, ao menos, uma dose da vacina. Todos os protocolos de segurança estão disponíveis em nosso Manual do Espectador, disponível aqui.
Serviço:
A Voz Humana e Ópera Aberta para Cantora e Halterofilista
Concerto presencial, aberto ao público
22/10, sexta-feira, 19h00
23/10, sábado,17h00
25/10, segunda-feira, 20h00
Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo
Alessandro Sangiorgi, regência
André Heller-Lopes, concepção e direção cênica
Rosana Lamosa, Soprano
Dilson Espindola, halterofilista
Renato Theobaldo, cenografia
Lúcia Chedieck, iluminação cênica
Stefanie Riedel e Luiz Lang, assistentes direção cênica
*Figurino de Marcelo Marques, peça de acervo do Theatro Municipal de São Paulo, criado para O Crepúsculo dos Deuses (2012).
Programa
FRANCIS POULENC
A Voz Humana. Tragédia lírica em um ato baseada em livro de Jean Cocteau (45’)
(Editor: Editions Ricordi, Paris / Edition Durand-Salabert-Eschig (Universal Music Publishing Group. Representada por Melos Ediciones Musicales S.A., Buenos Aires www.melos.com.ar)
GILBERTO MENDES
Ópera Aberta para cantora e halterofilista (10’)
Ingressos: R$10 a R$150
Classificação: Livre
Duração: 55 minutos, aproximadamente
Programa sujeito a alteração
Bilheteria: em função da pandemia de Covid-19, a bilheteria do Theatro Municipal de São Paulo está fechada por tempo indeterminado. Venda de ingressos exclusiva no site do Theatro Municipal de São Paulo
Manual do Espectador e Informações sobre os protocolos sanitários do Complexo Theatro Municipal: veja os protocolos de segurança do Theatro Municipal no site.
Theatro Municipal de São Paulo: Praça Ramos de Azevedo, s/nº, Sé – próximo à estação de metrô Anhangabaú.
(Fonte: Approach Comunicação)