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Grupo Andaime celebra 40 anos com “Massapê”, espetáculo sobre a resistência da cultura popular a partir da história pessoal de Antonio Chapéu

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Fotos: Thiago Altafini.

A trajetória da família que abandona sua cidade de origem em busca de uma vida melhor é comum a muitos brasileiros. Em uma história de 40 anos, o Grupo Andaime fez da cultura popular a sua matéria-prima, e agora reúne as memórias de família de seu fundador no espetáculo “Massapê – Histórias de vida e arte de Antonio Chapéu”, propondo uma dramaturgia afetiva, poética, ainda e sempre enraizada na cultura popular. A peça, com texto de Solange Dias e direção de Rogério Tarifa, estreia em 28 de maio no Sesc Belenzinho, em São Paulo, onde segue em temporada até 14 de junho.

O espetáculo foi construído a partir da pesquisa histórico-cultural da saga da família Silva desde a sua saída do interior de Minas Gerais, onde era submetida a trabalhos análogos à escravidão, até a sua chegada em Piracicaba/SP, há mais de 60 anos, para trabalhar nos canaviais da cidade, vislumbrando um futuro melhor. A narrativa se constrói a partir de memórias reais e simbólicas de Chapéu, formando em cena um território híbrido entre o quintal de sua infância, a sala de memória e o palco de resistência. O tempo é simultâneo: presente e passado coexistem, convocando vozes, cantos, sombras e gestos que moldam o barro da existência, entrelaçando episódios de sua trajetória com referências à oralidade, à ancestralidade negra e às tradições do interior paulista, como a Folia de Reis, a música caipira e os saberes do ofício artesanal.

“Minha família foi sempre ligada à cultura popular, à catira, à congada e às festas de Reis. Então eu sempre dava um jeito de colocar alguma coisa ali no meio. Uma música, ou uma reza, ou uma dança. E agora num espetáculo que vai tratar só disso, dessa história, pra mim é um acontecimento. É como se eu juntasse tudo que eu fiz até agora num espetáculo só. Quase como a realização de um sonho”, afirma Antonio Chapéu.

Ainda que centrado na figura de Antonio Chapéu, o texto de Solange Dias se abre para outras presenças simbólicas, criando camadas sensíveis de representação. Os objetos em cena assumem função dramatúrgica e afetiva. A linguagem mistura o coloquial ao lírico, a conversa ao canto, o real ao imaginado. A dramaturgia acolhe intertextualidades e incorpora musicalidades, poesias e falas populares que ecoam a trajetória do protagonista, além de canções compostas por Juh Vieira, criadas especialmente para o espetáculo. Ao final, o espetáculo se desenlaça como um rito de continuidade: uma oferenda à memória e à arte como caminhos de transformação.

A peça surge, a partir desse entrecruzamento entre memória e invenção, com a utilização de vivências reais e um inventário de lembranças, como recurso disparador para a criação de cenas, além da busca de uma linguagem poética inspirada nas obras de Guimarães Rosa. “Acho que uma das minhas funções principais como diretor é conseguir amarrar toda essa liberdade de linguagem nesse campo poético de criação que a gente constrói. Temos uma equipe muito potente, que constrói junto comigo essa pesquisa que eu chamo de ato-espetáculo-musical”, explica o diretor Rogério Tarifa.

O reencontro do diretor com o grupo também coroa uma história antiga. “Dirigi a peça que marcou os 25 anos do grupo Andaime, e volto agora a dirigir o espetáculo que celebra os 40 anos desse grupo tão importante. É um espetáculo popular, poético, um resgate da memória brasileira, resgate de culturas que se insiste em tentar apagar, mas elas estão como sempre resistindo, resistindo e formando seres e construindo linguagem”, acrescenta Tarifa.

O público pode esperar um espetáculo rico em elementos cenográficos, música, histórias emocionantes e causos compartilhados. “É como se eu pegasse todas essas fagulhas que foram acesas durante esses 40 anos para apresentar de uma vez só. É uma coisa que está mexendo muito comigo, inclusive. Tem muita coisa que eu achava que sabia da história da minha família, da minha história, que eu só vim a descobrir agora nessa pesquisa. Quantas outras famílias também não passaram por isso? Por essa busca do ser humano de encontrar soluções melhores de vida. Eu fico imaginando que isso por si só já vai identificar com muita gente”, conclui Chapéu.

Sinopse | Massapê surge da pesquisa do Grupo Andaime, das lembranças e memórias dos cortadores de cana e de suas famílias, remanescentes do povo negro, quando empreenderam uma travessia do interior de Minas Gerais para a lida nos canaviais de Piracicaba, interior de São Paulo. História de boa parte do povo brasileiro, a montagem é resultado do entrecruzamento entre memória e invenção, com a utilização de vivências reais e um inventário de lembranças da “família Silva”, como recurso disparador para a criação de cenas, além da busca de uma linguagem poética inspirada nas obras de Guimarães Rosa.

Ficha Técnica:

Concepção e atuação: Antônio Chapéu. Texto: Solange Dias. Direção Geral: Rogério Tarifa. Direção Musical e composições: Juh Vieira. Músicos: Juh Vieira, Marcos Coin e Dicinho Areias. Subs: Daniel Warschauer e Yuri Coin de Carvalho. Direção de movimento: Marilda Alface. Direção de palco: Diego Dac. Cenário: Rogério Tarifa e Diego Dac. Marceneiro: Valdemir Mineiro. Figurino: Juliana Bertolini. Iluminação: Marisa Bentivegna. Vídeo e fotos: Thiago Altafini. Pesquisa Teórica: Alexandre Mate e Sol Barreto. Designer gráfico: Fábio Viana. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli. Participações especiais: Família Silva (Joaquim Juarez da Silva, Vera Lúcia Silva Carvalho, José Carlos de Carvalho, Maria Cecília Moreno, Pedro Moreno, Maria do Carmo, Ana Inácio Silva, João Domingos, Elsabete Moreno, Sonia Regina Moreno de Lima, Ana Hermínia, Maria Paula Ferreira Silva) e Grupo Andaime (Jorge Lode, Carlos Jeronimo, Ariane Martins, Jennifer Garcia, Tiago de Luca e Joseane Bigaran). Produção: Rodri Produções. Assistentes de produção: Diego Leo e Julia Terron. Assistente administrativo: Rafael Tavares. Direção de produção: Carolina Henriques e Jessica Rodrigues.

SERVIÇO:

Espetáculo Massapê

Estreia: 28 de maio, quinta-feira, às 19h.

Temporada: De 29 de maio a 14 de junho. Sexta a sábado, às 19h. Domingo, às 16h.

Ingressos: R$ 50,00 (inteira); R$ 25,00 (meia-entrada); R$ 15,00 (Credencial Plena).

Vendas no portal sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades Sesc.

Local: Sala de Espetáculos II (100 lugares). Duração: 90 min. Classificação: A partir de 12 anos.

Sesc Belenzinho

Endereço: Rua Padre Adelino, 1000. Belenzinho – São Paulo (SP)

Telefone: (11) 2076-9700 | sescsp.org.br/Belenzinho

Estacionamento: De terça a sábado, das 9h às 21h. Domingos e feriados, das 9h às 18h.

Valores: Credenciados plenos do Sesc: R$ 8,00 a primeira hora e R$ 3,00 por hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 17,00 a primeira hora e R$ 4,00 por hora adicional.

Transporte Público: Metrô Belém (550m) | Estação Tatuapé (1400m)

Sesc Belenzinho nas redes: Facebook | Instagram | YouTube: @sescbelenzinho.

(Com Priscila Dias/Sesc Belenzinho)

Paisagens de Laura Villarosa ocupam a Zipper Galeria

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Artista desembarca em São Paulo para apresentar trabalhos recentes em que utiliza técnicas têxteis e diferentes materiais pictóricos. Fotos: Divulgação.

A partir de 16 de maio, a Zipper Galeria abriu para o público “Fio d’água”, exposição de Laura Villarosa. Com texto crítico de Priscyla Gomes, a mostra reúne um conjunto inédito de trabalhos em que a artista constrói paisagens imaginadas em que pintura e bordado se constituem mutuamente.

As composições de Villarosa evocam territórios anteriores ao mapa, superfícies percorridas por linhas e relevos que parecem preceder qualquer tentativa de localização geográfica. A artista trabalha a imagem que se forma pela acumulação paciente do gesto, fora do registro figurativo direto.

O bordado funciona como uma linguagem plástica autônoma e como método de pensamento para sua pesquisa. Cada camada de fio assentada sobre o tecido adensa a imagem, constrói volume, cobre uma região da superfície para que outra se revele. Suas paisagens resultam de sobreposições e decisões acumuladas ao longo de um tempo dilatado.

Sobre os trabalhos de Laura Villarosa, Priscyla Gomes destaca no texto crítico da exposição: “Ao fazer da pintura uma prática atravessada pelo fio, Laura retoma uma história antiga de gestos transmitidos e reinventados. Tecer, costurar, bordar e entrelaçar são ações cotidianas, recorrentemente associadas à produção feminina, mas também potentes modos de exploração do sensível. Nessa fusão de labores, a artista aproxima imagem e matéria, visão e tato, superfície e profundidade”.

Para este conjunto, a artista trabalha com fios de procedências diversas: alguns chegam por meio de fornecedores especializados, outros por doação de pessoas próximas que passaram a reconhecer em sua prática uma atenção particular ao material. Fios naturais convivem com sintéticos no mesmo trabalho, peças artesanais ao lado de industriais. A escolha de cada um aproxima-se da escolha de um pigmento. Em seus processos, Villarosa observa a cor que o fio carrega e o modo como ele absorve ou devolve a luz. Avalia também a textura que cada material imprime à superfície quando assentado em camada. Desses critérios surge a paleta de cada paisagem, definida pelo material antes mesmo de qualquer ideia de imagem.

Os trabalhos reunidos na mostra propõem uma forma de pensamento que se faz por meio da textura. O tecido bordado adquire ali a densidade de um campo pictórico e a sensibilidade de uma pele, submetido à mesma economia de gestos que organiza a pintura. O título “Fio d’água” elucida essa condição: uma imagem em transformação contínua, conduzida por um curso silencioso que se mantém em movimento.

Sobre a artista

Laura Villarosa (Palermo, Itália, 1961) vive e trabalha em Niterói, Rio de Janeiro, desde os anos 1980. Sua pesquisa estabelece a paisagem como campo expandido, no qual a pintura e as técnicas têxteis operam em regime de equivalência. Fios, linhas, algodão, nylon, cerâmica fria, aquarela, acrílica e resina são alguns dos materiais recorrentes em uma produção que recusa a representação literal do natural para propor, em seu lugar, uma construção material da experiência sensível diante da terra.

A formação de Villarosa articula um longo percurso em pintura e cor com o aprendizado de práticas têxteis incorporadas ao trabalho autoral a partir de 2017, quando passou pelo programa Imersões Poéticas da Escola Sem Sítio, no Paço Imperial do Rio de Janeiro, sob acompanhamento do artista Efrain Almeida. Desde então, a artista trata o processo como matéria constitutiva da obra, acumulando camadas de fios, tecidos e pigmentos sobre superfícies que adquirem espessura e volume. As composições flertam com a abstração e evocam atmosferas que oscilam entre serenidade e inquietação.

Em séries recentes, como Paisagem e Sensibilidade, Villarosa amplia o repertório de materiais, trabalhando sobre sedas oriundas de San Leucio, antiga colônia fundada no sul da Itália no século XVIII, reconhecida pela produção de tecidos para palácios e por seu projeto de sociedade igualitária. A artista também passou a usar cerâmica fria para modelar nuvens e diferentes texturas para compor suas paisagens imaginárias, ao mesmo tempo utópicas e distópicas. A artista costura a cerâmica ainda úmida, antes que o tempo e o calor a endureçam, e não se vê como ceramista: toma o material como extensão da tinta. Há, nos trabalhos, um interesse pela imaterialidade do ar, pelo volume das nuvens, pela densidade das montanhas e pelo reflexo instável das águas.

Villarosa realizou as individuais Lugar de passagem, na Zipper Galeria (2024); A ambígua linha sinuosa, na Zipper Galeria (2021); Na Voluta do horizonte, na Casa Brasil (Rio de Janeiro, 2025); A (des)ordem natural das coisas, na Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea (Rio de Janeiro, 2025); Aurora, na Galeria Dotart (Belo Horizonte, 2023); Impermanências, no CEART UFF (Niterói, 2023); Impermanência, projeto solo para a Zona Maco (Cidade do México, 2023); Seiva, na C. Galeria (Rio de Janeiro, 2022, com curadoria de Catarina Duncan); Reinventando paisagens, na DotArt (Belo Horizonte, 2020); e Melancolia da paisagem, na Galeria Sem Título (Fortaleza, 2019). Participou de coletivas como Paralelas, na Casa Ondina (São Paulo, 2025); Fios, entre poéticas e tramas, na Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea (Rio de Janeiro, 2024); No tempo da pintura, na Galeria Belizário (São Paulo, 2024); Rios e seus afluentes, na C.Galeria para a ArtRio (Rio de Janeiro, 2023); Paisagem passagem, na Fundação Mokiti Okada (São Paulo, 2021); o 12º Salão dos Artistas sem Galeria, na Zipper Galeria (São Paulo, 2021); e Coradjetiva, na BADESC (Florianópolis, 2014).

SERVIÇO:

Fio d’água – Laura Villarosa

Texto curatorial: Priscyla Gomes

Local: Zipper Galeria – R. Estados Unidos, 1494 – Jardim America, São Paulo

Abertura: 16 de maio | Período expositivo: 16 de maio a 13 de junho de 2026

Informações:  www.zippergaleria.com.br | @zippergaleria.

(Com Edgard França/Cor Comunicação)

Festival de Parintins traduz força da Amazônia em um dos maiores espetáculos culturais do Brasil

Parintins, AM, por Kleber Patricio

Entre Caprichoso e Garantido, arena de Parintins transforma ancestralidade, arte e identidade amazônica em uma celebração viva da brasilidade. Fotos: Reprodução/Festival Parintins.

No coração da floresta amazônica, cercada pelo rio Amazonas e a 369 quilômetros de Manaus, Parintins se prepara para receber uma das manifestações culturais mais potentes do país. Nos dias 26, 27 e 28 de junho de 2026, o Bumbódromo será palco da 59ª edição do Festival de Parintins, encontro que coloca frente a frente os bois Caprichoso e Garantido em três noites de música, teatro, dança, artes plásticas, saberes ancestrais e narrativas que nascem da própria Amazônia.

A grandiosidade da festa também se traduz em números. Em 2025, o festival atraiu cerca de 120 mil visitantes e movimentou aproximadamente R$ 184 milhões na economia local. Para 2026, a expectativa é de crescimento de 5%, com projeção de 126 mil turistas, impacto econômico de R$ 193,2 milhões e geração de mais de 30 mil empregos diretos e indiretos em áreas como turismo, cultura, comércio e serviços.

Mais do que uma festa popular, o Festival de Parintins afirma a força criativa de um território. Em cena, mitos, lendas, referências indígenas, africanas e europeias se encontram com as histórias de povos ribeirinhos, indígenas e caboclos, que assumem o protagonismo de suas próprias narrativas por meio das toadas, alegorias, coreografias e personagens que movimentam a arena.

Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2018, o Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins representa a memória coletiva, a identidade e a força criativa dos povos da região. Esse reconhecimento ajuda a dimensionar a relevância de uma tradição que ultrapassa a arena e se conecta à formação cultural brasileira. A cada edição, o festival reafirma sua singularidade ao unir criação artística, pertencimento e representatividade. O resultado é uma celebração que projeta a cultura amazônica para o Brasil, sem perder a profundidade de suas raízes locais.

Para Fred Góes, presidente do Boi Garantido, Parintins representa a cultura brasileira em sua essência. “Quando observamos os folguedos do Brasil, percebemos que todos carregam essa característica fundamental, que é a mistura de culturas. Na Amazônia, essa diversidade se torna ainda mais evidente. Somos uma região que historicamente viveu certo isolamento, o que fortaleceu uma identidade própria, construída a partir de múltiplas influências. O Festival de Parintins cumpre um papel fundamental ao tirar a Amazônia da invisibilidade cultural e projetar nossa identidade para todo o Brasil”, afirma.

Segundo ele, o boi-bumbá incorpora influências de diferentes regiões e povos, mas ressignifica tudo a partir da realidade amazônica. “O resultado é um espetáculo que dialoga com o Brasil inteiro, sem perder suas raízes. Passamos meses debatendo, construindo narrativas e buscando formas de traduzir, na arena, temas que falem da nossa história, da cultura amazônica e também de questões universais”, completa.

Do lado do Caprichoso, Ericky Nakanome, presidente do Conselho de Artes, vê o festival como um reflexo potente da brasilidade construída a partir do Norte. Para ele, não se trata de sintetizar todo o Brasil, mas de revelar, pela arte, uma identidade amazônica viva, plural e em constante transformação. “Ao observar o festival, percebo que muitos dos elementos que formam o Brasil estão presentes, especialmente as matrizes indígenas, africanas e europeias, expressas nos itens, nas temáticas e nas toadas. Ainda assim, o festival traduz, acima de tudo, a identidade do povo do Norte”, analisa.

Essa fusão de referências aparece na estética do boi-bumbá, nas narrativas apresentadas na arena e na própria história de Parintins. A cidade, marcada pela circulação entre Belém e Manaus e por ciclos migratórios como o da borracha, tornou-se um território de encontro entre povos, símbolos e expressões artísticas. Para Fred Góes, essa herança é o que faz de Parintins um farol cultural. “O Festival é mais do que um espetáculo. É um espaço de reflexão, identidade e valorização da nossa cultura. É a prova de que, por meio da arte, conseguimos contar quem somos e como queremos seguir enquanto sociedade”, finaliza.

Na leitura de Nakanome, o Festival de Parintins funciona como um grande eco cultural. “Ele não sintetiza todo o Brasil, mas reverbera uma brasilidade construída a partir da Amazônia, viva, diversa e em constante transformação”, conclui.

(Com Alisson Schafascheck/Vicente Negrão Assessoria)

Contos de Machado de Assis à luz da Psiquiatria e do Direito contemporâneo

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Capa.

Em 1869, Machado de Assis publicou o conto “O anjo Rafael”, no qual descreveu com precisão clínica um quadro em que o delírio de um pai é transmitido à filha criada em isolamento absoluto. Oito anos depois, Lasègue e Falret formalizariam na literatura médica aquilo que hoje se conhece como folie à deux, a psicose compartilhada. Esse pioneirismo do maior escritor brasileiro é o fio condutor de “Machado de Assis: a loucura e as leis”, obra organizada e comentada pelo psiquiatra Daniel Martins de Barros, com edição revista, ampliada e atualizada publicada pela Matrix Editora.

A proposta do livro é conduzir o leitor por um percurso interdisciplinar que une Literatura, Psiquiatria e Direito, tendo como fio condutor contos emblemáticos do pai do realismo brasileiro. “A literatura é rica em exemplos de descrições precisas – e por vezes pioneiras – de quadros clínicos”, comenta Barros. Textos como O alienistaO enfermeiro e A causa secreta revelam-se surpreendentemente atuais quando lidos à luz de questões contemporâneas sobre responsabilidade, normalidade, moralidade e poder.

O autor mostra como Machado antecipou debates centrais da psiquiatria moderna e expôs, com ironia e lucidez, os riscos do autoritarismo travestido de ciência. Os doze contos selecionados atravessam temas como crimes passionais, sadismo, burnout em cuidadores, simulação de doenças, jogo patológico e a validade jurídica de testamentos feitos por suicidas. “O interesse deste livro, mais do que reduzir a leitura da obra machadiana a uma superficial compilação de aspectos jurídicos ou médicos, é identificar em seus escritos pontos de convergência entre esses dois saberes, auxiliando-nos nessa já declarada complexa atividade, descobrindo como o talento literário do autor articulou essa interface”, comenta o autor.

Barros mostra que a loucura, na ficção machadiana, nunca é apenas patologia. É categoria social, instrumento de controle e espelho desconfortável da normalidade. Em um momento em que debates sobre saúde mental, imputabilidade penal e direitos de pessoas com transtornos mentais ocupam o centro das discussões jurídicas e políticas brasileiras, Barros oferece um instrumento raro: a ficção como ferramenta de compreensão do que a técnica ainda não consegue nomear.

O psiquiatra revela ainda a relação dos contos com as normas jurídicas, investigando as interações sociais regradas pelo Direito Civil e Público. Dentre os temas, discute a fundamentação legal das internações involuntárias e trata sobre a capacidade civil e a curatela conforme o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Traz também exemplos como a aplicação da atenuante de violenta emoção em homicídios, além de dilemas atuais da Psiquiatria Forense.

A nova edição inclui dois textos inéditos com comentários originais do organizador, e foi atualizada conforme mudanças no Código Civil, que transformaram profundamente o tratamento jurídico da capacidade civil e da interdição no Brasil, e incorpora as classificações mais recentes de transtornos mentais. Machado de Assis: a loucura e as leis é uma obra que dialoga com estudantes, profissionais do direito e da saúde, professores e leitores amantes da literatura clássica.

Ficha técnica

Título: Machado de Assis: a loucura e as leis – Reflexões sobre a natureza humana no encontro entre Literatura, Psiquiatria e Direito

Autoria: Daniel Martins de Barros

Editora: Matrix Editora

ISBN: 978-6556166599

Páginas: 248

Preço: R$ 85,00

Onde encontrar: Matrix EditoraAmazon e livrarias de todo o país.

Sobre o autor

Foto: Divulgação.

Daniel Martins de Barros é médico psiquiatra e professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Doutor em Ciências e bacharel em Filosofia pela USP, atua em divulgação médica. É autor de obras como Viagem por dentro do cérebro (indicado ao prêmio Jabuti de 2014), O caso da menina sonhadoraLado bom do lado ruimRir é precisoViver é melhor sem ter que ser o melhorTubo de ensaios (semifinalista do prêmio Jabuti Acadêmico) e Sofrimento não é doença. Pela Matrix Editora, publicou os livros-caixinha® Exercícios de Argumentação e Percepção x Realidade. Mantém o canal Daniel Martins de Barros no YouTube, sobre cérebro e comportamento, além de colunas na Band News FM, CNN e revista Galileu.

Redes sociais do autor: Instagram | Youtube | LinkedIn.

Sobre a Matrix Editora

Apostar em novos talentos, formatos e leitores. Essa é a marca da Matrix Editora, desde a sua fundação em 1999. A Matrix é hoje uma das mais respeitadas editoras do país, com mais de 1.100 títulos publicados e oito novos lançamentos todos os meses. A editora se especializou em livros de não-ficção, como biografias e livros-reportagem, além de obras de negócios, motivacionais e livros infantis. Os títulos editados pela Matrix são distribuídos para livrarias de todo o Brasil e também são comercializados no site www.matrixeditora.com.br

(Com Misael Freitas/LC Agência de Comunicação)

Galeria MITS expõe “Quando a Água Aprende a Queimar”, de Lía Matos

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Em busca da Chama (2023), Lía Matos. Fotos: MITS.

A Galeria MITS apresenta a exposição individual “Quando a Água Aprende a Queimar”, de Lía Matos. A mostra marca o momento na pesquisa da artista, que parte de paisagens abstratas para criar espaços e campos energéticos que permitem que o invisível se evidencie lentamente a partir de tensões e sobreposições.

Partindo da pintura, Lía Matos desenvolve um trabalho que se constrói por camadas, apagamentos e reaparições. As obras não se organizam a partir de uma imagem pré-definida, mas de um processo que se desdobra ao longo da execução. Ao escutar histórias de pessoas, conhecidas ou desconhecidas, a artista incorpora essas narrativas em suas pinturas, criando imagens que não pertencem exclusivamente a quem as produz. Seu processo se inicia com um gesto de liberação, como se algo precisasse ser retirado de dentro para então ganhar forma. A partir daí, a tela se transforma em interlocutora.

Cor e gesto estabelecem relações que se transformam continuamente em superfícies densas. O conjunto apresentado envolve o espectador em uma experiência que exige tempo e atenção, pois as obras não se oferecem de imediato, portanto se constroem na permanência do olhar.

Em articulação com o nome da exposição, o fogo aparece como elemento recorrente na produção recente de Lía Matos. A presença do elemento vai além de um símbolo, e atua como força que orienta o processo, que em contrapartida, a água surge como fluxo e deslocamento. A relação entre esses dois elementos organiza o conjunto da exposição, propondo uma reflexão sobre instabilidade, mudança e continuidade.

Lía Matos.

Sobre o convite para Lía expor, Roger Supino conta sobre a importância de jovens artistas que estão transformando o cenário da arte contemporânea. “Existe um compromisso muito claro da galeria em acompanhar artistas em formação, como é o caso da Lía, que apresenta sua primeira individual no Brasil depois de uma trajetória construída em Nova York. Para a MITS, interessa abrir espaço para o que está surgindo agora, com frescor e consistência.”

A exposição abriu ao público no dia 7 de maio e fica até o final de junho na Galeria MITS.

Sobre Lía Matos

Lía Matos é uma artista multimídia brasileira que vive e trabalha em Ridgewood, Nova York. Sua prática atravessa pintura, escultura, instalação e performance, com interesse em processos ligados à memória, espiritualidade e materialidade. É formada em Belas Artes pela School of Visual Arts, em Nova York, e realizou sua primeira exposição individual na cidade em 2024, na ChaShaMa. Seu trabalho já foi apresentado em exposições no Brasil e nos Estados Unidos e integra coleções privadas em diferentes países.

Sobre MITS

Fundada em 2023 por Roger Supino, catalisa artistas emergentes e conecta essas produções de repertório jovem à formação de um novo público colecionador. Com uma abordagem curatorial que dialoga com o tempo presente e um ambiente acolhedor, a MITS promove uma comunicação recheada de repertório artístico, apostando em formação de público e conexões mais horizontais. Além da representação de artistas contemporâneos emergentes, a galeria atua no mercado secundário, desenvolve projetos personalizados para colecionadores, e realiza parcerias com instituições e iniciativas sociais, reafirmando seu compromisso com um ecossistema artístico conectado. Descubra mais em @mits.galeria.

SERVIÇO:

Exposição Quando a Água Aprende a Queimar, de Lia Matos

Até final de junho

Visitação: segunda a sábado, das 10h às 20h

Local: Galeria MITS – Rua Padre João Manuel,740

Entrada gratuita.

(Com Giovanna Morrone/SAL PR)