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Paço Imperial realiza seminário sobre produção artística do Nordeste

Rio de Janeiro, RJ, por Kleber Patricio

Evento gratuito acontece nos dias 21 e 22 de agosto com a participação de artistas, curadores e pesquisadores, e integra a exposição “Nordeste Expandido: estratégias de (re) existir”. Fotos: @pavoa.

Com o objetivo de refletir sobre a produção artística da região Nordeste do país, será realizado nos dias 21 e 22 de agosto de 2026 o seminário da exposição “Nordeste Expandido: estratégias de (re) existir”, no Paço Imperial. Com entrada gratuita, o seminário contará com a participação de artistas, curadores e pesquisadores, como as curadoras e professoras Izabela Pucu, Luiza Interlenghi e Marisa Flórido Cesar; o historiador, sociólogo e pesquisador Alexandre Barbalho; os artistas Alan Adi, Simone Barreto e Dinho Araujo; a psicóloga, professora e arte-educadora Mariana Bessa e a artista, gestora cultural, educadora e curadora Samantha Moreira. “Esses encontros contam com a participação de curadores locais, artistas e convidados, reforçando a importância dos espaços de diálogo, da roda de conversa e da troca como forças motrizes do pensamento artístico”, afirmam as curadoras Jacqueline Medeiros e Cecília Gallindo.

O seminário terá duas rodas de conversa, uma no dia 21 e outra no dia 22 de agosto, ambas com entrada gratuita. A primeira será “Nordestes e pesquisas em trânsito”, no dia 21 de agosto, sexta-feira, às 16h, que propõe um espaço de diálogo sobre a região e a sua produção a partir do olhar de Izabela Pucu, Luiza Interlenghi, Marisa Flórido, Alexandre Barbalho e Alan Adi. Mais do que pensar o Nordeste como uma unidade homogênea, a ideia é reconhecer o que emerge de diferentes territórios, experiências, temporalidades e modos de produzir conhecimento. Cada pesquisa constrói, desloca ou tenciona determinadas imagens e sentidos atribuídos à região. Assim, a roda busca abrir espaço e alargar conceitos para que diferentes vozes e experiências revelem as diferenças, as contradições, os deslocamentos e as reinvenções. Nesse movimento, a produção artística também se apresenta como campo de criação e disputa, capaz de inventar outras imagens e possibilidades para os Nordestes. Entre pesquisas, produções e experiências, a arte aparece como espaço de trânsito.

No dia 22 de agosto, às 15h, será realizada a conversa “Territórios, imaginação e educação – processos educativos”, que propõe um encontro entre artistas que, em diferentes edições do projeto, também participaram da construção e da experiência dos processos educativos. A partir dessas vivências, a conversa busca refletir sobre as relações entre arte, território e educação, compreendendo o educativo não apenas como mediação, mas como espaço de encontro, escuta, experimentação e produção coletiva de sentidos. As experiências dos participantes permitem pensar como diferentes territórios atravessam as práticas artísticas e educativas e como a imaginação pode criar outras formas de perceber, ocupar e narrar esses espaços. Nesse percurso, a roda pretende compartilhar experiências e pensar coletivamente os caminhos possíveis para processos educativos que sejam sensíveis às particularidades dos territórios e às múltiplas formas de produzir conhecimento.

A exposição “Nordeste Expandido: estratégias de (re) existir” pode ser vista até o dia 6 de setembro de 2026, no Paço Imperial. Com curadoria de Jacqueline de Medeiros e curadoria adjunta de Cecília Gallindo Cornélio, a mostra apresenta 216 obras de 110 artistas da região Nordeste do Brasil, em uma itinerância iniciada em 2023 no Recife, que já passou por Fortaleza, Natal, São Luís, Teresina, João Pessoa e Aracaju até chegar ao Rio de Janeiro.

A exposição e o seminário integram o programa Nordeste Expandido, que tem o objetivo de atualizar o acervo artístico do Banco do Nordeste com obras de artistas de diversas áreas de atuação, reduzindo as lacunas quantitativas e de diversidade étnica, racial e de gênero. Após a finalização do processo de aquisição, o Banco volta a esses estados para apresentar o conjunto geral de obras, integradas com rodas de conversas entre os artistas e curadores participantes, nas quais o público pode conhecer melhor as dinâmicas da produção artística de cada região. 

SOBRE OS PARTICIPANTES 

Izabela Pucu

Curadora, pesquisadora, gestora cultural e professora.  Doutora em História e Crítica da Arte pelo PPGAV/EBA/UFRJ, 2017. Coordenadora geral da Plataforma Mario Pedrosa atual desde 2018. Pesquisadora associada do projeto Amérique Latine no Oficial. Centre Georges Pompidou, 2023. Vencedora do Prêmio Jabuti, 2020, indicada e semifinalista em 2024. Ministrou, entre outros, o curso “Arte, crítica e política na América Latina (MASP, 2026). Co-organizadora do livro Mario Pedrosa Atual (MAR, 2019), Roberto Pontual: obra crítica (Prefeitura do Rio/Azougue, 2012), entre outros, de inúmeros seminários, entre eles Vetores do Sul: Mario Pedrosa, crítica de arte e política na América Latina (CPF/SESC, 2023). Co-curadora de exposições como Os avesso do avesso da Liberdade (Solar,2025), Ensaios para o Museu das Origens (Tomie Ohtake/ Itáu Cultural, 2023/24), curadora de mostras como Loucura Suburbana 25 anos (Futuros, 2025), Pintura de Borda, Mirela Luz (Casa França Brasil, 2024), Fio-ação, de Mariana Guimarães (Paço Imperial, 2023). Diretora e curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (2014-2016), Coordenadora de Educação do Museu de Arte do Rio (2018-2020), curadora do Solar (2025). Professora substituta do Instituto de Artes da Uerj (2008-2012).

Luiza Interlenghi

Curadora e professora do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio. É Doutora em História e Crítica da Arte, PPGAV, EBA-UFRJ (2015), com a tese Arte em Campo Instável sobre artistas que testam as bordas dos espaços institucionais da arte. Ministrou cursos de história da arte no Masp – Escola e no SESC Nacional, entre outras instituições. É curadora de diversas exposições, como Visualidades Brasileiras – Funarte 50 Anos (Mezanino Palácio Gustavo Capanema, Funarte, 2026); Entrelinhas, de Valeria Costa Pinto (Galeria Gaby Índio da Costa, RJ, 2024); Kalunga Kia Kolelaku, de Luanda Francisco (Abapirá, RJ, 2023); e cocuradora de Parada 7 – Arte em Resistência (coletiva, Centro de Arte Hélio Oiticica e Centro Cultural da Justiça Federal, RJ, 2022); Publicou, ensaios sobre Beatriz Milhazes; Maria Pólo; Danilo Di Prete e Eliseu Visconti no catálogo da 60ª Bienal de Veneza, Itália (2024). É autora dos ensaios: O que é…? sobre exposição de Ricardo Basbaum (Gal. Marli Matsumoto, 2024); Essa vontade de cor, em Ione Saldanha: A cidade inventada, São Paulo: MASP, 2022; Beatriz Milhazes: Life and Work, em Beatriz Milhazes, Taschen, 2022; além de Arte em campo instável (2016) e junto a Frederico Morais A felicidade é o problema fundamental da arte, (2014), ambos na Revista Arte & Ensaios (PPGAV – UFRJ).

Marisa Flórido Cesar

Professora do Departamento de História e Teoria da Arte e do PPGartes do Instituto de Arte da UERJ. Crítica de arte e curadora independente. Possui livros e textos sobre artes visuais em livros, revistas acadêmicas, catálogos e periódicos no Brasil e no exterior.

Alexandre Barbalho

Possui licenciatura em História pela UECE, bacharelado em Ciências Sociais e mestrado em Sociologia pela UFC e doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA. Fez estágio pós-doutoral em Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. É professor adjunto do curso de História e professor permanente dos PPGs em Sociologia e em Políticas Públicas da UECE e em Comunicação da UFC. Tem experiências nas áreas de Política, Cultura e Comunicação, atuando principalmente nos seguintes temas: política cultural, política de comunicação, mídia e cidadania, mídia e minorias, mídia e política, elites. É autor ou organizador, entre outros, de: Democracia radical e pluralismo cultural. Para ler Chantal Mouffe (2015); Política cultural e desentendimento (2016) – edição em espanhol: Política cultural y desacuerdo (2020); Cultura e democracia (2017); e Sistema Nacional de Cultura. Campo, saber e poder (2019).  Comunicação e cultura das minorias (com Raquel Paiva, 2005 – edição em espanhol: Comunicación y cultura de las minorías, 2012 );  Cultura e desenvolvimento: Perspectivas políticas e econômicas (com Lia Calabre, Paulo Miguez e Renata Rocha, 2011); Federalismo e políticas culturais no Brasil (com Lia Calabre e José Márcio Barros , 2013); Políticas culturais no governo Dilma (com Albino Rubim e Lia Calabre, 2015); Os trabalhadores da cultura no Brasil: criação, práticas e reconhecimento (com Elder Maia e Mariela Vieira, 2017); e Retratos do Ceará moderno: emergência de um padrão de modernização cultural nas margens (com Mariana Barreto, 2020).

Alan Adi

O trabalho de Alan Adi (Aracaju, 1986) passa por pesquisar comumente temas relacionados à formação da sociedade brasileira partindo da perspectiva da região Nordeste, evidenciando a produção artística vinda dessa região ao mesmo tempo em que essa produção dá suporte para a construção de trabalhos que discutem questões sobre migração, economia, história e educação. Interações entre a herança social das imagens associadas ao Nordeste e o atual contexto de nação povoam boa parte de sua pesquisa recente que se atrela aos formatos usuais daquilo que ficou historicamente demarcado como a poética visual oriunda da região. 

Simone Barreto (Fortaleza, Ceará, 1984) é artista visual e educadora. Sua prática investiga as relações entre trabalho, memória, maternidade e narrativas autobiográficas femininas, tendo a linha — do desenho, da costura e do bordado — como elemento central de sua pesquisa. A partir de arquivos familiares, memórias e experiências cotidianas, desenvolve desenhos, objetos, livros de artista e trabalhos têxteis que transformam gestos historicamente associados ao universo doméstico em linguagem poética e reflexão crítica sobre gênero, cuidado e trabalho. Foi indicada ao *Prêmio PIPA 2020, recebeu o Prêmio Principal do 69º Salão de Abril (2018) e participou de exposições, residências e programas de pesquisa no Brasil e na Colômbia. É idealizadora do Õwã Brincar, projeto dedicado às poéticas da infância.

Dinho Araujo é artista e educador nascido no Maranhão, na região da Baixada. É licenciado em Educação Artística pela UFMA, Mestre em Antropologia pela UFPB, professor substituto do Departamento de Artes da UFMA e gestor cultural do Chão, espaço independente em São Luís. A partir de mídias como a fotografia, o lambe e a careta, seu trabalho investiga raça e aparições. Participou das exposições coletivas “Um defeito de cor”, no Museu de Arte do Rio (2022), Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira (MUNCAB) em Salvador (2023) e Sesc Pinheiros (2025), Nordeste expandido: estratégias de (re) existência, do Banco do Nordeste Cultural (2023/25), “Lélia em nós: festas populares e amefricanidade”, no Sesc Vila Mariana (2024), Preamar (SP-Art), em São Paulo (2022), Cais, na Galeria Galatéa (2023), Residência ao Acaso, na Galeria Luciana Brito (2024). Realizou circulação nacional com a cena expandida “Performance Preta no Brasil”, com Elton Panamby, pelo Palco Giratório (2019), programa de pesquisa e intercâmbio sobre a produção negra e indígena no campo da performance. Sua individual, História dos animais e árvores, foi exibida no 33º Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, em 2024.

Mariana Bessa é Psicóloga, Professora e Arte-Educadora, e dedica-se à tessitura de conexões entre esses campos do saber, instaurando diálogos entre subjetividade, arte e educação. Sua prática se orienta por uma investigação crítica das múltiplas formas de ser, fazer e existir no mundo contemporâneo. Acredita na criatividade como força transformadora, capaz de instaurar experiências dotadas de sentido, e na cultura como potência política e estética para a reinvenção do mundo.

Samantha Moreira

Artista, gestora cultural, educadora e curadora. Fundadora do Ateliê Aberto (Campinas/SP 1997), do CHÃO SLZ (São Luís/MA 2015), coordenadora institucional do JA.CA Centro de Arte e Tecnologia e do Arrudas Pesquisa em Artes (Nova Lima e Belo Horizonte/MG desde 2018). Uma das idealizadoras do PREAMAR ações em rede a partir do Maranhão, do Fundo Colaborativo para artistas e criadores, organizado por um grupo de espaços independentes parceiros; co-curadora da VERBO Mostra de Performance Arte em São Paulo, São Luís e em Fortaleza (2018 a 2023), co-curadora da Novas Aquisições Coleção Maranhão – Centro Cultural Banco do Nordeste; Poema aos Homens do nosso Tempo – Hilda Hilst em diálogo, Prêmio Rede Nacional Funarte; Comestível, Prêmio ProAc; Depois das Fronteiras – Paisagens sonoras e visuais no planalto, Daquilo que me habita no CCBB Brasília, Instante experiência/acontecimento – co-curadoria do núcleo de performances audiovisuais, SESC Campinas (2012), entre outras exposições e prêmios. Juri de seleção e orientadora do Programa LABCULTURAL 2021 do BDMG Cultural. Juri de seleção e coordenação e curadoria do Bolsa Pampulha (2018/2019). Integrou as comissões de seleção/ou premiação do 46 Edital MARP Ribeirão Preto, 25 Salão Anapolino de Arte (2021), Seleção dos projetos inscritos na Lei Aldir Blanc – Secretaria de Cultura de Campinas, (2020), 4a Laboratório de Artes Visuais do Porto de Iracema das Artes -Fortaleza (2017), ProAC para Espaços Independentes – Sec. da Cultura do Estado de São Paulo (2016), Prêmio Foco – ArtRio (2016), 5a Edição do Prêmio Marcantônio Vilaça (2015),Programa de Exposições do Museu de Arte de Ribeirão Preto, (2013), entre outros. Participou de exposições como 32°Panorama da Arte Brasileira no MAM, Rumos Artes Visuais Itaú Cultural, Temporada de Projetos Paço das Artes. Junto ao JACA coordenou o Programa CCBB Educativo entre 2018 e 2022, o 7 Bolsa Pampulha 2018/2019, integrou o conselho consultor da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará na implementação e coordenação das exposições de abertura da Pinacoteca do Ceará.
 Organizadora dos livros Ano13 frutos, sementes, árvores, jardim – JA.CA 2023, Thiago Martins de Melo – 2018 Ed. Capivara, Metadados – Ateliê Aberto – Prêmio ProAc Espaços Independentes, 2015, IndieGESTÃO – como chupar cana e assobiar ao mesmo tempo – JÁ.CA e Ateliê Aberto Prêmio Rede Nacional 

SERVIÇO:

Seminário Nordeste Expandido: estratégias de (re) existir

Dia 21 de agosto de 2026, às 16h – “Nordestes e pesquisas em trânsito”

Dia 22 de agosto de 2026, às 15h – “Territórios, imaginação e educação – processos educativos”

Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial [Sala dos Archeiros]

Praça XV de Novembro, 48 – Centro – Rio de Janeiro – RJ

Entrada gratuita

Capacidade: 80 lugares

Realização: Banco do Nordeste Cultural, Paço Imperial e Iphan

Apoio: Atlantis e Associação de Amigos do Paço Imperial.

(Com Beatriz Caillaux/Midiarte Comunicação)

Aberto Solo inaugura novo espaço para artes visuais no Teatro Cultura Artística

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Luísa Matsushita estreia “Tudo que eu sei, eu aprendi à noite” em mostra inédita concebida especialmente para o edifício. Foto: Ruy Teixeira

A plataforma Aberto lança a Aberto Solo, iniciativa dedicada à realização de exposições individuais concebidas a partir do diálogo entre artistas contemporâneos e espaços singulares da cidade. Sua primeira edição acontece em parceria com o Cultura Artística e marca a inauguração da nova área expositiva da instituição, localizada no primeiro andar do edifício.

Em cartaz entre 15 de agosto e 27 de setembro, “Tudo que eu sei, eu aprendi à noite”, de Luísa Matsushita, inaugura simultaneamente o programa e o novo espaço. Previsto no projeto original concebido por Rino Levi na década de 1950, o ambiente ganha vida mais de 70 anos depois de sua criação, ampliando a atuação do Cultura Artística e incorporando de forma permanente as artes visuais à sua programação.

Obra “Três abraços”, 2026. Foto: Erika Mayumi.

A inauguração concretiza uma vocação histórica do edifício. Desde sua origem, o projeto de Rino Levi propunha a integração entre arquitetura, arte e vida cultural, entendendo as artes plásticas como elemento constitutivo da experiência do público. A ativação dessa área resgata e atualiza essa visão, estabelecendo um diálogo entre o patrimônio modernista e a produção artística contemporânea. “Com Aberto Solo, inauguramos um novo capítulo da plataforma. Enquanto as edições principais reúnem diversos artistas em diálogo com arquiteturas de grande relevância, este formato nos permite aprofundar a pesquisa e o universo de um único artista”, explica Filipe Assis, idealizador e diretor geral da Aberto.

Conhecida internacionalmente como Lovefoxxx, vocalista da banda Cansei de Ser Sexy (CSS), Luísa Matsushita apresenta um conjunto de pinturas inéditas produzidas especialmente para o Cultura Artística. As obras partem de suas memórias afetivas do centro de São Paulo e da intensa vida noturna do Baixo Augusta, região onde viveu no início de sua trajetória artística.

Foi justamente na Rua Augusta, onde acompanhou de perto o renascimento da cena noturna paulistana nos anos 2000, que Matsushita reuniu o repertório de imagens que hoje viram pintura. “Os ritmos dos notívagos, a vida no clube, suas personagens e suas descontinuidades são traduzidos para uma linguagem pictórica abstrata”, descreve o crítico Rodrigo Moura, autor do texto que acompanha a mostra, sobre obras com títulos como Antes da noite e Fila do baile.

“O dia não sustentou o que a noite esboçou”, 2026. Foto: Erika Mayumi.

Além do conjunto de obras da mostra, a artista criará uma instalação site-specific de 15 metros de largura para o saguão principal do Teatro, expandindo a ocupação para além da sala expositiva e estabelecendo um diálogo direto com a arquitetura do edifício. A intervenção reforça a proposta da Aberto Solo de desenvolver projetos concebidos em estreita relação com os espaços que os recebem.

As telas são construídas por camadas sucessivas de tinta a óleo, aplicadas lentamente até que os campos de cor se encostem sem nunca se misturar — uma economia de meios que, na leitura do crítico Rodrigo Moura, aproxima o trabalho de uma linhagem da abstração brasileira que passa por Cícero Dias, Roberto Burle Marx, Lygia Clark e Ernesto Neto. Para Moura, o controle preciso dessas variáveis formais, somado aos títulos hiper-sugestivos das obras, faz de Matsushita “uma voz fresca entre os pintores de sua geração que optaram pela abstração”.

Ao ocupar a nova área expositiva do Cultura Artística, a mostra estabelece conexões entre memória, cidade e experiência urbana. Ao mesmo tempo, inaugura um programa que pretende aproximar artistas contemporâneos de arquiteturas e contextos carregados de história, ampliando as formas de encontro entre arte e público.

“Antes da noite”, 2026. Foto: Erika Mayumi.

A abertura marca um novo capítulo na trajetória do Cultura Artística, reconstruído e reinaugurado após o incêndio de 2008, e reforça sua vocação como um espaço aberto à cidade, conectado à produção contemporânea e à intensa circulação cultural de seu entorno.

A iniciativa também reativa uma dimensão histórica da instituição, cuja identidade visual é marcada pelo painel Alegoria das Artes, de Di Cavalcanti — o maior já realizado pelo artista. Ao inaugurar sua frente dedicada às artes visuais em parceria com a Aberto, o Teatro amplia seu papel como ponto de encontro entre patrimônio, arte contemporânea e cidade, reafirmando sua vocação para o diálogo entre diferentes linguagens artísticas.

Um detalhe guardado a sete chaves até pouco antes da abertura: na instalação do foyer, a artista escondeu uma mensagem secreta que só aparece no reflexo do chão. Como ela mesma contou ao crítico Rodrigo Moura, autor do texto que acompanha a exposição, está escrito ali um simples “Você veio”.

Exposição dá origem a colaborações inéditas

“Espiral de veludo”, 2026. Foto: Erika Mayumi.

A primeira edição da Aberto Solo também reúne iniciativas desenvolvidas em parceria com marcas que compartilham o interesse pelo diálogo entre arte, design e criatividade. As colaborações expandem a pesquisa de Luísa Matsushita para diferentes suportes, aproximando sua produção de tradições artesanais e do universo da joalheria.

Em parceria com a Bordallo Pinheiro, a artista apresenta Memória de Planta, obra que revisita um dos símbolos mais emblemáticos da marca: a folha de couve. Desenvolvida a partir de residências artísticas promovidas na Fábrica de Faianças em Caldas da Rainha, Portugal, a peça propõe uma leitura contemporânea desse ícone. “A couve é um símbolo da Bordallo Pinheiro e eu quis retrabalhar esse ícone a partir de uma visão contemporânea. Se você se permitir olhar, dá para ver todo um universo dentro delas, como os afluentes desaguando em um rio, como veias de um corpo”, afirma a artista.

A pesquisa de Matsushita também inspira uma colaboração inédita com a HStern. A partir da pintura Hambagu (2023), a joalheria desenvolveu uma pulseira que transpõe para a escala do corpo as formas e relações cromáticas presentes na obra. Produzidas em Prata de Lei e composta por rubis, esmeraldas e safiras azuis e amarelas, a joia traduz o universo visual da artista e reafirma o diálogo entre a arte contemporânea, design e alta joalheria.

Sobre a Aberto

Fundada por Filipe Assis, a Aberto é uma plataforma expositiva dedicada à arte e ao design brasileiros em diálogo com arquiteturas emblemáticas. Desde 2022, realizou exposições em casas modernistas assinadas por arquitetos como Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas, além de ocupar espaços ligados aos legados de Tomie Ohtake e Chu Ming Silveira. Em 2025, a plataforma realizou sua primeira edição internacional na Maison La Roche, projetada por Le Corbusier, em Paris, registrando o maior público desde a abertura da casa à visitação, em 1968. Em 2026, apresentou uma edição especial na Casa Bola, de Eduardo Longo, e lançou o projeto ABERTO RUA, dedicado a intervenções artísticas no espaço urbano.

Sobre o Cultura Artística 

Fundado em 1912, o Cultura Artística é um espaço dedicado à música e à formação de público, reconhecido por sua atuação na difusão de repertórios e na construção de experiências musicais relevantes. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se como um dos principais palcos do país, reunindo artistas nacionais e internacionais. Reaberto em agosto de 2024, o teatro reafirma sua vocação ao mesmo tempo em que amplia sua programação, incorporando novas frentes e linguagens. Saiba mais em https://culturaartistica.org.

Sobre a artista 

Foto: Pedro Bucher.

Luísa Matsushita desenvolve uma pintura marcada por composições vibrantes, nas quais cor, gesto e humor transformam elementos cotidianos em formas autônomas e singulares. Sua pesquisa explora as relações entre campos tonais e a capacidade da pintura de criar espaços íntimos, imaginários e afetivos.

Artista visual, musicista e autodidata, vive e trabalha em São Paulo. Cofundadora da banda Cansei de Ser Sexy, também foi conhecida internacionalmente como Lovefoxxx, construindo uma trajetória na música antes de direcionar sua atuação para as artes visuais. Paralelamente, aprofundou pesquisas em sustentabilidade, bioconstrução e agroecologia.

Desde 2013, desenvolve sua prática pictórica e realizou exposições individuais como Se não for pra chorar, eu nem saio de casa (Galeria Luisa Strina, São Paulo, 2023), ELA (Galerie L’Amazonie, Manaus, 2015) e Animal (Percy Gallery, Oakland, EUA, 2014). Em 2015, participou da residência artística Igarapé do Mariano, em Manaus, ampliando sua investigação sobre meio ambiente e natureza. Atualmente é representada pela galeria Mazzucchelli Cardoso.

SERVIÇO: 

Aberto Solo – Tudo que eu sei, eu aprendi à noite, de Luísa Matsushita 

Abertura: 15 de agosto, a partir das 13h

Período expositivo: até 27 de setembro

Cultura Artística – R. Nestor Pestana, 196, Consolação, São Paulo, SP

Tel.: +55 (11) 3256-0223

Grátis

Horários: Quarta a sexta, das 12h às 20h; sábados, das 10h às 20h; domingos, das 10h às 18h.

(Com Patrícia Marrese/Cor Comunicação)

Aretha Sadick protagoniza “Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Poder”, releitura de Shakespeare no Sesc Ipiranga

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Aretha Sadick em cena de Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Poder. Foto: Cacá Berrnardes

O que uma pessoa é capaz de fazer para chegar ao poder? E o que acontece quando finalmente consegue? Essas são algumas das questões que movem “Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Poder”, espetáculo protagonizado por Aretha Sadick, com direção de Tainara Cerqueira e tradução e adaptação de Rodrigo França, que estreia no Sesc Ipiranga no dia 21 de agosto, com temporada até 13 de setembro de 2026.

Em Macbeth, uma das tragédias mais conhecidas de William Shakespeare, a ambição pelo trono desencadeia uma sequência de assassinatos e conduz o casal protagonista à destruição. Lady Macbeth ocupa papel decisivo nesse percurso: é ela quem transforma a possibilidade sugerida pela profecia em plano de ação e pressiona o marido a ultrapassar o limite entre desejar o poder e agir para conquistá-lo. A própria tradição crítica da obra costuma associá-la à ambição e à manipulação, mas leituras contemporâneas têm ampliado a discussão sobre gênero, poder e responsabilidade na tragédia.

É justamente essa personagem, Lady Macbeth, que a montagem coloca no centro. Em vez de reproduzir a tragédia de Shakespeare, a peça parte dos principais monólogos da personagem para construir uma reflexão sobre os mecanismos da ambição. O texto preserva passagens fundamentais da obra original, especialmente aquelas ligadas ao planejamento dos crimes, mas Rodrigo França acrescenta reflexões de caráter filosófico e sociológico que funcionam como uma espécie de comentário sobre a própria ação.

A mudança de perspectiva também altera a relação com a história conhecida. Macbeth não aparece em cena, embora esteja presente como um espectro com quem Lady Macbeth dialoga. A personagem recebe a carta do marido e, a partir dela, começa a preparar o discurso que usará para convencê-lo a assassinar o rei Duncan. As bruxas são interpretadas pela própria Aretha e aparecem no início da montagem. A história é organizada em cinco atos e uma cena final, acompanhando a personagem desde a preparação do crime até o momento posterior à conquista da coroa.

A encenação

Uma situação cotidiana dá início ao espetáculo: Lady Macbeth toma banho. A banheira, o espelho e uma escada compõem um espaço íntimo que progressivamente se transforma em território de disputa pelo poder. A escada ganha diferentes significados ao longo da peça, associada tanto à ascensão ao trono quanto à presença de Macbeth. É nesse ambiente que a personagem passa da intimidade à estratégia, da estratégia ao crime e, finalmente, à necessidade de sustentar aquilo que conquistou.

Em determinado momento, Lady Macbeth se transforma diante do público: Aretha aplica maquiagem branca no rosto e no corpo e coloca uma peruca loira para construir a imagem de uma figura associada ao poder. A cena estabelece uma relação com a história de Chica da Silva e com a reflexão de Frantz Fanon sobre os mecanismos de assimilação e a construção de uma aparência associada à branquitude como forma de acesso a espaços de poder.

A escolha de uma atriz negra para interpretar Lady Macbeth interfere na própria leitura da personagem. Se, na obra de Shakespeare, Lady Macbeth deseja a coroa e está disposta a ultrapassar limites para conquistá-la, a montagem acrescenta outra camada à pergunta: o que significa desejar um lugar de poder quando esse lugar foi historicamente construído a partir da exclusão de determinados corpos?

Essa perspectiva também atravessa a equipe criativa. A direção de Tainara Cerqueira, desenvolvida em colaboração com Rodrigo França, parte do corpo e do movimento para transformar texto, intenção e estado emocional em ação. A diretora, cuja pesquisa passa pela dança e pelos corpos negros em cena, trabalha com Aretha uma transformação física que acompanha o percurso da personagem. O resultado é uma Lady Macbeth que não apenas fala sobre o poder, mas o experimenta corporalmente.

O figurino de Luiz Claudio Silva reforça essa trajetória. São três momentos principais: o primeiro, marcado por uma peça preta de caráter íntimo; o segundo, por um vestido azul usado quando Lady Macbeth se prepara para se tornar rainha; e o terceiro, por uma alfaiataria que aparece quando a personagem já alcançou o lugar que perseguia. O azul, associado historicamente à realeza e à ideia de “sangue azul”, também remete à construção cultural da cor como símbolo de distinção e poder.

A trilha sonora original de Dani Nega acompanha a estrutura da montagem. Em alguns momentos, ganha força e conduz o movimento da atriz; em outros, funciona como uma camada sonora contínua para os monólogos. A iluminação de Carol Gracindo segue uma lógica cinematográfica, com mudanças sutis de luz durante as cenas e longos períodos de permanência em um mesmo estado. A escolha dialoga com uma das características da montagem: em contraste com a velocidade das imagens contemporâneas, a peça propõe ao espectador permanecer diante de uma situação e observar suas transformações.

O ponto de virada da personagem acontece depois da conquista da coroa. Se, até então, sua existência estava organizada pela falta e pelo desejo de chegar ao poder, o que resta quando o objetivo é alcançado? A partir daí, a personagem começa a olhar para o próprio percurso e para o custo daquilo que fez. A pergunta que abriu sua trajetória retorna sob outra forma: depois de fazer tudo para chegar ao poder, o que fazer com ele?

Macbeth é uma obra frequentemente retomada por sua capacidade de produzir novas leituras sobre ambição, violência e poder. Para a Folger Shakespeare Library, a tragédia continua a falar a diferentes gerações justamente porque suas questões são continuamente deslocadas pelos contextos históricos e sociais em que é encenada. Em Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Poder, esse deslocamento passa pelo corpo de Aretha Sadick e por uma pergunta que Shakespeare deixou aberta: até onde alguém está disposto a ir para conquistar aquilo que deseja?

Aretha Sadick

Aretha Sadick, atriz, participou em 2024 das séries “Reencarne” (Rede Globo), “Cidade de Deus” (MAX) e “Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente” (MAX). Foi protagonista nos curtas “A Lama da Mãe Morta” e “Se eu tô aqui é por Mistério” (2023). Atuou na série infantil “A Caverna de Petra” (Canal Futura /Globoplay) e em participações nas séries “Me Chame de Bruna” (FOX) e “Os Ausentes” (MAX). No teatro, interpretou Macunaíma na “Ópera Tupi” (2019), foi coprotagonista em “Jorge Para Sempre Verão” (2022), integrou o elenco de “AQUI – elevado a 1 trilhão” (2024) e esteve no espetáculo ‘Avenida Paulista – da Consolação ao Paraíso’ dirigida por Felipe Hirsch. Em 2026 protagoniza no cinema os filmes “Baricentro”, com direção de Raphael Gustavo e Rochelle Silva, É Nois Kita Produções e Superketa, com direção de Gustavo Vinagre. E no teatro, estreia agora em agosto o monólogo “Lady Macbeth”, com direção de Rodrigo França e Tainara Cerqueira.

Ficha Técnica

A partir da obra de William Shakespeare

Tradução e Adaptação: Rodrigo França

Direção Cênica e Direção de Movimento: Tainara Cerqueira

Assistente de Direção: Priscila Borges

Atuação e Concepção Cenográfica: Aretha Sadick @arethasadick

Trilha Sonora Original: Dani Nega

Iluminação: Carol Gracindo

Figurino e Adereços: Luiz Claudio Silva

Visagista: Rosa Di Carlo

Técnico de Luz: Givva

Produção e Gestão Cultural: Dani Correia, Gabi Correia, Rachel Brumana e Veni Barbosa

Associação SÙ de Cultura e Educação

Direção de Produção: Sadick Produções.

SERVIÇO:

Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Poder

Sesc Ipiranga

R. Bom Pastor, 822 – Ipiranga, São Paulo – SP, 04203-000

De 21/8 a 13/9/2026 | Sextas, às 21h; sábados e domingos, às 18h30

Valores: R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia) / R$ 15 (Credencial Plena)

Duração: 60min Recomendação: 16 anos.

(Com Daniele Valério/Canal Aberto Assessoria de Imprensa)

Novíssimo Edgar e Wagner Antônio apresentam o espetáculo “Urutau”, uma investigação sonora realizada dentro de uma instalação de luz no Instituto Capobianco

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Fotos: Helena Wolfenson.

O artista Novíssimo Edgar,um dos nomes mais inventivos da cena contemporânea brasileira, e o premiado iluminador Wagner Antônio apresentam a obra inédita “Urutau”, no Instituto Capobianco. As sessões acontecem de sexta a domingo até 30 de agosto.

O espetáculo parte da história de um piano que deseja se transformar em um Urutau, pássaro de hábitos noturnos que dá nome à obra. A partir dessa narrativa, Edgar e Wagner constroem um território de investigação sonora e cênica, atravessado por cantos indígenas, hip hop, reggae, blues, música experimental e poesia falada. Luz, som, corpo e espaço se articulam em uma dramaturgia única, criando uma experiência sensorial que convida o público a percorrer diferentes camadas de percepção.

Novíssimo Edgar é músico, poeta, artista visual e performer, desenvolve uma produção que atravessa diferentes linguagens e já colaborou com artistas como Elza Soares, João Donato, Céu e BaianaSystem. Sua trajetória inclui exposições, instalações e performances em importantes instituições e eventos nacionais e internacionais, entre eles a apresentação no Vão Livre do MASP durante a Virada Cultural 2026, consolidando uma pesquisa marcada pelo diálogo entre música, performance e artes visuais.

Já Wagner Antônio é reconhecido por desenvolver uma pesquisa que articula teatro, instalação, performance e arquitetura da luz. Vencedor do Prêmio Shell de Teatro em 2025 e 2026, na categoria Iluminação, pelos espetáculos Filoctetes em Lemnos e Um Jaguar por Noite, o artista tem se destacado por criações que expandem as possibilidades da linguagem teatral a partir da relação entre luz, espaço e corpo.

O encontro entre os dois artistas também evidencia a potência de suas trajetórias. Em Urutau, as fronteiras entre concerto, teatro, performance e instalação se dissolvem, fazendo da obra uma experiência híbrida.

A obra integra o Vértice, novo programa anual de Residências Artísticas do Instituto Capobianco, que reúne música, teatro, performance, artes visuais e tecnologia. Realizado sempre no mês de agosto, o programa convida, a partir de 2026, um artista da música brasileira para desenvolver uma obra inédita, tendo a música como eixo de um processo de criação colaborativo e concebida especialmente para o espaço.

SERVIÇO:

Urutau

com Novíssimo Edgar e Wagner Antônio

Temporada: De 07 a 30/08

Sexta e sábado, 20h | domingo, 19h

Ingressos: R$30 inteira | R$15 (meia)

Instituto Capobianco

www.institutocapobianco.art.br

Rua Álvaro de Carvalho, 97 – Centro Histórico de São Paulo, São Paulo – SP

Café Capô

Sextas e sábados:  18h30 – 1h30

Domingos: 16h30 – 23h30.

(Com Valeria Blanco/Atti Comunicação)

Exposição celebra 70 anos da Romi-Isetta, primeiro carro produzido em série no Brasil

Santa Barbara d'Oeste, SP, por Kleber Patricio

Mostra resgata a trajetória e a história da produção do carro que marcou o início da indústria automobilística brasileira. Fotos: Divulgação.

A história do primeiro carro produzido no Brasil poderá ser conhecida de perto na exposição “Romi-Isetta 70 anos”, inaugurada no dia 14 de agosto no Tivoli Shopping, em Santa Bárbara d’Oeste (SP). A mostra marca o início das comemorações pelos 70 anos do lançamento da Romi-Isetta e reúne documentos de época, desenhos técnicos, fotos históricas e um exemplar do veículo fabricado em 1958.

Com entrada gratuita, a exposição resgata a história e apresenta ao público documentos e imagens que ajudam a compreender os desafios e o pioneirismo envolvidos na criação do primeiro carro produzido no país. A exposição ficará disponível para visitação na Entrada A do Tivoli Shopping até dia 30.

A produção do primeiro carro nacional foi iniciativa da Romi, fabricante de tornos e implementos agrícolas de Santa Bárbara d’Oeste (SP), fundada em 1930. No início de 1955, Américo Emílio Romi e seu enteado, Carlos Chiti, se interessaram por um revolucionário veículo urbano chamado Iso Isetta, fabricado na Itália. Importaram duas unidades para estudar sua produção local e, depois de testes e avaliações indicarem sua viabilidade, partiram para uma reunião na sede da empresa na Europa.

A ideia era produzir o veículo no Brasil em parceria, mas a Isetta não tinha recursos, dado o cenário da Itália pós-Segunda Guerra Mundial. Destemida, a Romi decidiu bancar a empreitada sozinha, obtendo a licença de fabricação e pagando 3% de royalties sobre cada unidade vendida.

A Romi, com muita determinação, conseguiu contratar diversos fornecedores nacionais, sendo o principal deles a paulistana Tecnogeral, que produzia as partes metálicas do carro como o chassi e a carroceria. Com isso, já em junho de 1956, a primeira unidade da Romi-Isetta deixava a linha de montagem de Santa Barbará d’Oeste, em um novo galpão erguido na Romi especialmente para esse fim. O lançamento oficial, porém, ainda esperaria mais três meses, para composição de estoque e constituição da rede de vendas e assistência técnica. 

Antecipando tendências em várias frentes

A Romi-Isetta foi a precursora da mobilidade sustentável. Trata-se de um carro urbano, compacto, econômico – tanto no preço quanto no consumo –, prático, ágil, fácil de dirigir e estacionar e de manutenção simples.

O projeto herdou várias soluções técnicas da avançada indústria aeronáutica, origem de seu projetista, Ermenegildo Pretti. Alguns exemplos são a carroceria aerodinâmica, em forma de gota d’água, a porta única frontal (como dos aviões cargueiros), que facilitava o acesso ao interior do modelo ao mesmo tempo em que fortalecia a estrutura do veículo, a grande área envidraçada, como nos caças a jato, e o amplo uso de materiais mais leves e modernos, como o alumínio.

Por suas características únicas, a Romi-Isetta causou uma onda de paixão instantânea nos brasileiros. Além de aclamado pela imprensa e pelo setor industrial, a classe artística também abraçou o carrinho. Vários atores e atrizes muito famosos na época tiveram um Romi-Isetta ou participaram diretamente de suas atividades de divulgação, como Eva Wilma e John Herbert, o que contribuiu fortemente para a popularidade e carisma do modelo. 

Avanços técnicos e o fim da produção

A primeira Romi-Isetta usava motor Iso dois tempos de 236 cm3 e 9,5 hp, com bloco e cabeçote em alumínio em posição central. A velocidade máxima era de 85 km/h e, graças ao seu baixo peso, de apenas 350 quilos, o consumo chegava a impressionantes 25 km/l.

Depois de algumas evoluções estéticas até 1958, em 1959 veio a maior mudança: foi lançada a Romi-Isetta 300 de Luxe, com motor BMW quatro tempos de 298 cm3 e 13 hp, que aumentou o desempenho sem sacrificar o consumo. Essa versão também recebeu diversas melhorias técnicas e estéticas, tanto no interior quanto no exterior.

Em 1961 a Romi-Isetta já havia cumprido, com amplo sucesso, seu papel de indutora da industrialização automobilística nacional, que então caminhava a passos largos graças à política desenvolvimentista adotada pelo governo JK. Em 13 de abril daquele ano o último Romi-Isetta, nas cores branco e amarelo-limão, deixou a linha de montagem para entrar definitivamente na história – que agora poderá ser revivida de perto, exatos 70 anos depois de seu lançamento, no Encontro Nacional de Romi-Isettas em Santa Barbará d’Oeste. 

Exposição “Romi-Isetta 70 anos”

Local: Tivoli Shopping

Realização: Fundação Romi

Patrocínio: Azimut Brasil e Romi S.A.

Apoio: Tivoli Shopping, Balmax Gestão de Serviços e Prefeitura de Santa Bárbara d’Oeste, por meio da Secretaria de Segurança, Trânsito e Defesa Civil.

(Com Bruna Quintanilha/SD&Press)