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“Mãe de menino” discute os impasses da masculinidade contemporânea

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Capa.

A partir de estudos, entrevistas com adolescentes e de sua experiência como mãe de três meninos, a jornalista Ruth Whippman escreveu “Mãe de menino”, livro publicado pela Editora Planeta que investiga os dilemas de educar garotos em um mundo transformado pelas novas discussões sobre gênero. A obra parte de uma pergunta central e provocadora: o que significa, para uma feminista, colocar mais um homem no mundo em meio à chamada “era da masculinidade impossível”?

Ao analisar os impactos do #MeToo, Whippman observa um contraste marcante: enquanto meninas são incentivadas a expandir seus comportamentos e identidades, meninos permanecem presos a roteiros rígidos de masculinidade. Esse engessamento, segundo a autora, ajuda a explicar fenômenos contemporâneos como a solidão masculina, o crescimento de movimentos misóginos e os efeitos de uma socialização que pouco prepara os garotos para lidar com vulnerabilidade, cuidado e empatia.

Combinando memórias pessoais, análise cultural e jornalismo investigativo, Mãe de menino aborda temas como saúde mental, educação, tecnologia, sexo, consentimento, pornografia e cultura do cancelamento. Ao longo do livro, Whippman revisita suas próprias certezas sobre privilégio masculino e expõe os pontos cegos de uma sociedade que cobra mudanças dos homens, mas oferece poucas alternativas viáveis aos modelos de masculinidade tóxica e rígida.

Sensível, afiado e frequentemente bem-humorado, o livro dialoga diretamente com debates atuais sobre violência de gênero, feminicídio, suicídio e outras consequências de padrões masculinos nocivos amplamente retratados nos noticiários. Mãe de menino também se destaca como leitura relevante para pautas de parenting, especialmente sobre adolescência e tecnologia, ao propor uma reflexão urgente: como oferecer aos meninos uma narrativa mais saudável, generosa e libertadora sobre quem eles são — e quem podem se tornar?

FICHA TÉCNICA

Título: Mãe de menino

Autora: Ruth Whippman

Tradução: Andresa Vidal

ISBN: 9788542240603

384 páginas

R$ 79,90

Editora Planeta

SOBRE A AUTORA

Ruth Whippman é autora e jornalista británica radicada nos Estados Unidos. Ex-diretora e produtora de documentários da BBC, teve ensaios, críticas culturais e reportagens publicados em veículos como The New York Times, Time Magazine, The Guardian e Huffpost. Seu primeiro livro, The Pursuit of Happiness, foi eleito um dos Melhores Livros do Ano pelo New York Post, além de ter sido destaque na seleção de editores do The New York Times, leitura obrigatória do Daily Mail e leitura de verão recomendada pelo The Sunday Times. Ruth mora na Califórnia com o marido e os três filhos.

SOBRE A EDITORA

Fundado há 70 anos em Barcelona, o Grupo Planeta é um dos maiores conglomerados editoriais do mundo, além de uma das maiores corporações de comunicação e educação do cenário global. A Editora Planeta, criada em 2003, é o braço brasileiro do Grupo Planeta. Com mais de 1.500 livros publicados, a Planeta Brasil conta com nove selos editoriais, que abrangem o melhor dos gêneros de ficção e não ficção: Planeta, Crítica, Tusquets, Paidós, Planeta Minotauro, Planeta Estratégia, Outro Planeta, Academia e Essência.

(Com Nathalia Bottino/Editora Planeta)

Expografia arquitetônica aproxima artistas concretos e contemporâneos na DAN Galeria Interior

Votorantim, SP, por Kleber Patricio

Dionísio Del Santo – Retícula Vibratória Variação, 1973 – Serigrafia, 49 x 70 cm.

“O espaço e o lugar”, nova exposição da DAN Galeria Interior, abre no dia 9 de maio, sábado, com curadoria de Fábio Magalhães e expografia do Fernando Poles Arquitetos. A mostra reúne 75 obras e propõe uma leitura sobre a maneira como o espaço se transforma em lugar quando passa pelo corpo e pela memória. A cadeira, presente em diferentes trabalhos, conduz essa investigação: objeto cotidiano, medida humana, ponto de repouso, marca de intimidade e, também, abertura para uma dimensão mais ampla, ligada ao tempo e ao espaço. A partir desse eixo, Fábio Magalhães aproxima obras de Adolfo Estrada, Almir Mavignier, Dionísio Del Santo, Ferreira Gullar, Gonçalo Ivo, José Roberto Aguilar, José Spaniol, Sergio Fingerman e Valentino Fialdini. O percurso articula pinturas, objetos, obras geométricas e abstratas em torno de uma pergunta central: como uma situação privada pode conter uma ideia de mundo?

O núcleo que envolve Ferreira Gullar introduz essa questão de forma direta. Em Poemas Espaciais, conjunto de nove peças em pintura sobre madeira, a obra se constrói na relação entre estrutura e leitura no tempo. Cada peça propõe uma situação que articula superfície, gesto e percepção. O espaço se desdobra em duração. É a partir desse campo que a presença da cadeira ganha densidade. Na obra de José Roberto Aguilar, a cadeira de Van Gogh aparece deslocada dentro da pintura. A referência passa pelas duas telas realizadas em 1888: sua própria cadeira, com o cachimbo, e a cadeira de Gauguin, com livros e um castiçal aceso, analisadas por Georges Bataille no ensaio “A mutilação sacrificial e a orelha cortada de Van Gogh”. Nessas duas imagens, o pintor estabelece uma diferença entre modos de presença: uma ligada ao cotidiano, outra à espera e a uma dimensão mais simbólica. Ao serem retomadas por Aguilar, essas imagens entram em outro regime. A cadeira permanece como ponto de ancoragem, enquanto o espaço pictórico se expande ao redor, aproximando o objeto de uma escala cósmica.

José Roberto Aguilar – Cadeira de Van Gogh transportada para o Multiverso n. 7, 2026 – Acrílica e esmalte sobre tela, 209 x 419 cm.

De acordo com o curador, essa passagem entre o íntimo e o ilimitado acompanha uma ideia antiga: o desejo humano de alcançar o que excede a própria condição. Na Epopeia de Gilgamesh, essa busca pela permanência atravessa a experiência do tempo. Aqui, ela se vincula ao espaço — ao modo como o corpo se situa e projeta sentido. Espaço, tempo e lugar se articulam. “Uma coisa está dentro da outra”, observa Fábio Magalhães. A partir daí, as obras se articulam em torno dessa continuidade. O maior conjunto da exposição é de Dionísio Del Santo, com cerca de 30 obras, em diálogo com trabalhos de Almir Mavignier, nos quais a imagem se organiza como uma constelação, em que repetição e variação produzem uma expansão contínua do campo visual. Em Gonçalo Ivo, a cor sustenta a pintura. Sergio Fingerman trabalha com uma imagem em instabilidade constante. José Spaniol desloca a cadeira para o campo simbólico, alterando sua percepção como objeto cotidiano e inserindo-a em uma dimensão de movimento. Adolfo Estrada e Valentino Fialdini aproximam a geometria de uma condição aberta, sem fechamento definitivo. A continuidade entre interior e exterior atravessa esse conjunto.

A expografia assinada pelo Fernando Poles Arquitetos entra nesse mesmo campo. O escritório foi convidado a desenvolver uma leitura arquitetônica que participa da definição do conjunto. Um túnel atravessa o espaço da galeria e conecta dois momentos da mostra. A travessia altera a percepção, estabelece um ritmo e reorganiza a relação entre corpo e obra. A arquitetura reforça a passagem entre escalas que sustenta a exposição.

SERVIÇO:

O espaço e o lugar

Artistas: Adolfo Estrada, Almir Mavignier, Dionísio Del Santo, Ferreira Gullar, Gonçalo Ivo, José Roberto Aguilar, José Spaniol, Sergio Fingerman, Valentino Fialdini

Curadoria: Fábio Magalhães

Expografia: Fernando Poles Arquitetos.

Abertura: 9 de maio de 2026, sábado, das 10h30 às 15h

Período expositivo: até 10 de outubro de 2026

Visitação: segunda a sexta, das 10h às 18h; sábados, das 10h às 13h

DAN Galeria Interior

Endereço: Av. Ireno da Silva Venâncio, 199, Galpão 20 – Protestantes, Votorantim, SP

Fundada em 1972, em São Paulo, por Gláucia e Peter Cohn, a DAN Galeria consolidou ao longo de cinco décadas uma atuação contínua na articulação entre arte moderna e contemporânea. Seu programa se desenvolve a partir de um eixo claro: a investigação das linguagens construtivas, com atenção particular às heranças do concretismo e do neoconcretismo, e seus desdobramentos nas práticas atuais.

Em Votorantim, a DAN Interior, conduzida por Cristina Dalanhesi, integra essa atuação como sede voltada a exposições, acervo e circulação artística. O espaço acolhe obras de grandes dimensões, ativa parte do acervo da galeria e amplia o contato entre artistas, colecionadores, instituições e público fora do eixo das capitais.

(Fonte: Agência Catu)

Cris Barulins leva espetáculo infantil “Planeta Peteca” ao Teatro Frei Caneca

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Fotos: Flavio Moraes.

No meio da apresentação, acontece uma coisa curiosa: ninguém mais sabe exatamente onde termina o palco e começa a plateia. Crianças levantam, adultos entram no jogo, sons surgem de lugares improváveis e, quando se percebe, o teatro inteiro já virou um grande espaço de brincar — é nesse clima que “Planeta Peteca”, espetáculo de Cris Barulins, chega a São Paulo no dia 23 de maio, às 15h, no Teatro Sabesp Frei Caneca.

Aqui, não existe uma única forma “certa” de assistir. Tem criança que canta, outra que prefere observar, tem quem levante na hora e quem vá entrando aos poucos — e tudo isso faz parte. O espetáculo se constrói justamente nessa liberdade, abrindo brechas para que cada pequeno encontre seu próprio jeito de se envolver sem roteiro rígido ou expectativa de comportamento.

Ao longo da apresentação, objetos ganham vida sonora, gestos viram linguagem e pequenas histórias conduzem a atenção sem pressa. Petecas cruzam o ar, instrumentos aparecem de formas inesperadas e o ambiente vai se construindo em tempo real a partir da troca entre artistas e público.

Cris Barulins, que desenvolve há anos um trabalho voltado à infância e às tradições orais brasileiras, conduz a experiência ao lado da Banda do Barulho com escuta e presença. A apresentação se desenha de forma aberta, acompanhando o que surge no encontro com o público, sem rigidez ou pressa — como um convite constante ao improviso e à descoberta. Como a própria artista costuma dizer, “a criança não separa música de brincadeira… pra ela, tudo é junto. Ela entra com o corpo inteiro, inventa, responde, transforma o que está acontecendo — e quando a gente acompanha isso de verdade, o espetáculo ganha outro sentido”. 

As músicas passeiam entre cantigas conhecidas, como “Borboletinha” e “Tem Gato na Tuba”, e composições próprias que rapidamente entram no repertório afetivo dos pequenos. “Planeta Peteca” e “Tatu Bolinha”, por exemplo, surgem acompanhadas de jogos corporais que convidam todos a participar.

No fim, o que fica não é só o que foi visto ou ouvido, mas o que foi vivido junto — uma experiência compartilhada que continua ecoando depois que as luzes se apagam.

SERVIÇO:

Planeta Peteca – Cris Barulins e Banda do Barulho

Onde: Teatro Sabesp Frei Caneca

Quando: 23 de maio (sábado), às 15h

Quanto: R$ 30 (meia) a R$ 100 (grátis para menores de 2 anos) via uhuu.com

Sobre Cris Barulins

Com cinco álbuns lançados, Cris Barulins é cantora, compositora, percussionista e arte-educadora. Desenvolve uma trajetória dedicada à música e à infância, unindo pesquisa sonora, brincadeira e escuta sensível. Tornou-se mãe em 2021 e, desde então, passou a entrelaçar de forma ainda mais direta a experiência da maternidade com sua criação artística. Atualmente, além da turnê Pandeirodê, também desenvolve o projeto Cris Bosch, no qual apresenta interpretações autorais voltadas à MPB. Seus espetáculos circulam por teatros, centros culturais e unidades do Sesc, sempre com foco na presença, no corpo e na música como espaço de encontro. instagram.com/crisbarulins.

(Com Sidney Triumpho)

Temporada de baleias começa cedo no Litoral Norte

Litoral Norte de São Paulo, por Kleber Patricio

Avistamentos antecipados reforçam o potencial da região como destino de ecoturismo e animam o trade para o período. Foto: Paulo Stefani.

O Litoral Norte de São Paulo abre mais uma temporada de avistamento de baleias e cetáceos com expectativas históricas. Após um 2025 recorde, com mais de 800 registros, os primeiros avistamentos de 2026 foram confirmados ainda em abril, antecipando a movimentação nas cinco cidades que integram o Circuito Litoral Norte: Bertioga, Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba.

Entre maio e novembro, as águas do litoral paulista se tornam rota de passagem e permanência das baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), que migram das regiões frias do hemisfério Sul em direção às águas mais quentes do Brasil para reprodução e cuidado dos filhotes. A rica biodiversidade marinha da região, que abriga 4 espécies de baleias, 7 espécies de golfinhos, além de tartarugas, raias-manta e tubarões-baleia, transforma o Litoral Norte em um dos principais destinos de turismo de natureza do país durante o período de baixa temporada.

Foto: @projetobaleiaavista.

“O avistamento de cetáceos já está consolidado como um importante produto turístico do Litoral Norte e ganha força a cada temporada. Hoje, essa experiência movimenta toda a cadeia do turismo na baixa temporada, atrai visitantes em busca de contato com a natureza e reforça o posicionamento da nossa região como referência em ecoturismo sustentável. O mais importante é que esse crescimento é realizado com responsabilidade, por meio da qualificação das operadoras, da educação ambiental e da preservação da nossa biodiversidade marinha. Esse é um ativo valioso que gera emprego, renda e desenvolvimento para os municípios, ao mesmo tempo em que promove conscientização e valoriza uma das maiores riquezas que temos, que é o nosso patrimônio natural”, afirma o presidente do consórcio turístico, Toninho Colucci.

Avistamentos em abril: flutuação natural

O primeiro registro de baleias-jubarte em abril, antes do pico da temporada, que historicamente ocorre entre junho e julho, é explicado pelo Instituto Baleia Jubarte como parte do comportamento natural da espécie.

“Já existiu registro de avistamento de baleias-jubarte no mês de abril em anos anteriores, e isso é normal. Há uma flutuação e variação natural na chegada delas. Além disso, as baleias podem passar mais próximas à costa ou mais distantes — quando passam mais distantes, podem não ser vistas. Nossa temporada no Litoral Norte de SP tem uma maior concentração de baleias nos meses de junho e julho”, explica a coordenadora do Instituto Baleia Jubarte no Litoral Norte de São Paulo, Rafaela Souza.

Expectativas altas para 2026

Foto: Divulgação/PMSS.

A demanda por informações sobre avistamento de cetáceos já cresceu antes mesmo do início oficial da temporada, sinal do amadurecimento desse segmento no Litoral Norte.

“As expectativas estão altas. Muitas pessoas já estão procurando informações sobre o avistamento de baleias. Para nós, a expectativa é sempre de uma temporada de sucesso, com um turismo sendo realizado de maneira responsável. Todos os anos preparamos ações para orientação sobre as regras de avistagem, educação ambiental para a conservação das baleias, golfinhos e ambientes marinhos, e além disso, de ver a economia local crescer e girar nesse período considerado como baixa temporada”, destaca Rafaela.

O turismo de avistamento de cetáceos tem papel estratégico para os municípios da região justamente por movimentar a economia durante os meses de menor fluxo turístico, gerando renda para guias, operadores náuticos, pousadas, restaurantes e toda a cadeia do turismo local.

Passeios com empresas credenciadas: segurança para o turista e para os animais

Avistamento de golfinhos em Ilhabela. Foto: Divulgação.

Um dos pontos mais importantes para quem deseja viver a experiência do avistamento de baleias é a escolha de operadoras habilitadas, que seguem as normas legais de conduta e participam de programas de qualificação em conservação ambiental.

“Algumas prefeituras, como Ilhabela e São Sebastião, criaram um selo para incentivar o turismo responsável, com o cadastramento de empresas que cumprem diversos requisitos, dentre eles, participar da oficina de boas práticas que o Projeto Baleia Jubarte realiza, com o apoio das prefeituras. A busca por empresas cadastradas valoriza o turismo seguro, tanto na navegação quanto no avistamento, o que é muito importante para o turista, que procura um passeio que respeite as normas e a natureza”, afirma a representante do Instituto Baleia Jubarte.

Além da segurança, a escolha de operadores credenciados conecta o turista diretamente à ciência. “Nós, do Projeto Baleia Jubarte, também realizamos parceria com alguns operadores e saímos embarcados no turismo, realizando palestras pré-embarque e acompanhando a saída com os turistas. Dessa forma, integramos educação ambiental, pesquisa e incentivamos a ciência cidadã”, completa.

Regras de avistamento

Para garantir a segurança dos animais e a qualidade da experiência, as embarcações devem seguir normas estabelecidas por legislação federal:

– Distância mínima de 100 metros de qualquer cetáceo

– Proibido perseguir ou interromper o curso natural dos animais

– Motor desengatado ao se aproximar das baleias

– Proibido mergulhar ou nadar com as espécies

O descumprimento dessas regras está sujeito a penalidades e compromete a continuidade da atividade na região.

Sobre o Circuito Litoral Norte

O Consórcio Intermunicipal Turístico Circuito Litoral Norte de São Paulo integra os municípios de Bertioga, Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba. A entidade atua na gestão integrada e no desenvolvimento sustentável do turismo regional, promovendo as cinco cidades como um destino único, rico em diversidade natural, cultural e gastronômica.

Para contratar passeios com operadoras credenciadas, acesse o guia de fornecedores oficial: circuitolitoralnorte.tur.br/guiageral

Mais informações sobre experiências na região: circuitolitoralnorte.tur.br.

(Com Eliria Buso/Assimptur)

“Eu Chorei Rios”: FGV exibe arte dos povos originários da América

Rio de Janeiro, RJ, por Kleber Patricio

Manto Tupinambá. Foto: Lucena de Lucena.

A FGV Arte inaugurou, no dia 6 de maio de 2026, na sede da Fundação Getulio Vargas, Zona Sul do Rio de Janeiro, a exposição “Eu chorei rios: arte dos povos originários da América”, com curadoria de Glicéria Tupinambá Paulo Herkenhoff. Este é o oitavo projeto expositivo realizado pela instituição desde a sua inauguração em 2023.

A mostra apresenta um conjunto amplo e heterogêneo de produções que operam como formas de pensamento, conectando imagem, matéria e narrativa. Pinturas, fotografias, esculturas, objetos, mantos, instalações e artefatos históricos compõem um panorama plural de linguagens e cosmologias, reunindo criações de diversos povos originários da América Latina. Ao confrontar leituras universalizantes, o projeto inscreve essas produções no campo expandido da arte contemporânea, em diálogo direto com disputas territoriais, institucionais e epistemológicas do presente.

Eu chorei rios se constrói também como desdobramento da exposição Adiar o fim do mundo, apresentada em 2025 na FGV Arte e orientada pelas reflexões de Ailton Krenak, deslocando o foco do diagnóstico da crise para a afirmação de práticas e presenças que persistem e transformam mundos. Para Herkenhoff, “se antes a questão do antropoceno era colocada em xeque como narrativa dominante, aqui ela se expande em múltiplas formas de existência que recusam a separação entre natureza e cultura, sujeito e território, reconfigurando a arte como espaço de continuidade, contraposição e invenção”.

A participação de Glicéria Tupinambá na curadoria introduz uma inflexão decisiva, ao trazer para o centro da exposição aquilo que ela define como “nhe’ẽ se”, o “desejo de fala”: “A gente chega na arte com esse desejo de falar, de falar de um lugar que nunca foi ouvido, sempre foi silenciado”, observa a curadora. “Os povos indígenas sempre fizeram arte, mas não tinham o direito de dizer o que aquilo era.” A atuação de Glicéria integra arte, pesquisa e ação comunitária, atravessando a mostra com uma perspectiva que amplia o campo de leitura das obras e desloca seus próprios fundamentos.

Daiara Tukano – Uawa Busa Manto do Urubu Rei – Cortesia Daiara Tukano e Almeida & Dale. Foto: Ana Pigosso.

Nesse contexto, a presença de artistas como Daiara Tukano, Yaka Edilene Sales Huni Kuin, Lastenia Canayo e Rita Pinheiro Sales Kaxinawá evidencia o papel central das mulheres nas cosmologias indígenas e na produção artística. Seus trabalhos operam como enunciações de mundo, articulando grafismos, narrativas, cantos e sistemas de conhecimento que atravessam gerações, ao mesmo tempo em que tensionam leituras historicamente marginalizantes.

A exposição se organiza como um campo de visibilidade em disputa, em que diferentes temporalidades e regimes de representação se confrontam. Obras contemporâneas convivem com peças históricas, artefatos, registros fotográficos e produções audiovisuais, evidenciando tanto a persistência quanto os conflitos em torno das imagens indígenas. Nesse conjunto, destacam-se trabalhos de Ailton Krenak, Claudia Andujar, Denilson Baniwa, Djanira, Gustavo Caboco, Keyla Sobral, Lygia Pape e Mestre Valentim.

A noção de território atravessa o projeto não apenas como tema: pinturas, mantos, objetos, vídeos e intervenções espaciais configuram a exposição como um espaço de demarcação simbólica, em que a arte atua como prática de inscrição e reivindicação. “Os cantos, as histórias, o que a gente vive no corpo: é isso que preserva a memória”, afirma Glicéria. “A nossa cultura não está só na materialidade. Ela é cantada, celebrada, dançada, e passa de geração em geração.”

A mostra se expande para além do espaço expositivo, ocupando a fachada e a esplanada da FGV com intervenções que ampliam a experiência do público. Entre elas, a pintura de Xadalu Tupã Jekupé, um jardim circular concebido especialmente para a ocasião e a presença de obras que ativam o espaço externo como campo sensorial. A instalação de Jaider Esbell atua como um gesto de acolhimento, introduzindo o visitante em uma dimensão cosmológica da exposição. “É uma imersão. O corpo entra nesse espaço e começa a experimentar essas diferentes camadas”, observa a curadora.

Daiara Tukano – Cortesia Daiara Tukano e Almeida & Dale. Foto: Ana Pigosso.

Também presente na mostra como artista, Glicéria Tupinambá desenvolve um dos eixos centrais a partir do Manto Tupinambá, apresentado tanto como obra quanto em uma ação na abertura. Distanciando-se da ideia de performance como linguagem formal, ela propõe uma ativação que convida o público à experiência. “O que eu faço é convidar as pessoas a sentirem. Rezar não dói, cantar não dói, dançar não dói. É uma forma de tirar o manto da vitrine e colocá-lo em movimento no corpo e no mundo.” Ao deslocar o manto de sua condição museológica, o gesto reinsere essa forma em um circuito vivo, abrindo novas possibilidades de percepção e relação.

Eu chorei rios contribui para reconfigurar os próprios termos de visibilidade das produções indígenas. “A gente não está impondo nada aqui. A intenção é um processo de diálogo, de construção, de fazer o outro entender como a gente vê o mundo.” Nesse sentido, a exposição se inscreve como um gesto de escuta e posicionamento institucional, no qual a arte se apresenta como meio de pensar, sustentar e demarcar mundos possíveis.

A FGV Arte reafirma seu compromisso com a formação de público e a democratização do acesso à arte e à cultura por meio de um programa educativo e acadêmico estruturado. Ao longo da exposição, a instituição receberá mais de 100 escolas e cerca de 5 mil estudantes da rede pública de ensino em visitas mediadas, promovendo experiências qualificadas de aproximação com a arte. Em diálogo com essa frente, o programa acadêmico se organiza como um eixo complementar de reflexão e produção de conhecimento, reunindo atividades formativas e iniciativas voltadas ao aprofundamento crítico dos temas propostos pela exposição.

Sobre a FGV Arte

Localizada na sede da FGV, em Botafogo, no Rio de Janeiro, a FGV Arte é um espaço voltado para a valorização, a experimentação artística e os debates contemporâneos em torno da arte e da cultura, buscando incentivar o diálogo com setores criativos e heterogêneos da sociedade, dividindo-se em três eixos principais: exposições, publicações e atividades educacionais – acadêmicas e práticas. Tem como curador chefe, o crítico Paulo Herkenhoff.

SERVIÇO:

Eu chorei rios: arte dos povos originários da América

Curadoria: Glicéria Tupinambá e Paulo Herkenhoff

Abertura: 6 de maio de 2026 | Encerramento: 20 de setembro de 2026

Local: FGV Arte | Esplanada da Fundação Getúlio Vargas – End: Praia de Botafogo, 186 – Botafogo, Rio de Janeiro | RJ

Tel: (21) 3799-5537

Website: Link | Instagram: @fgv.arte

Horários de funcionamento:

De terça a sexta, das 10h às 20h Sábados e domingos, das 10h às 18h

Entrada gratuita| Classificação livre.

(Com Márcia Gomes/Insight Comunicação)